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01/09/10 - Caminhada no surreal deserto brasileiro

incr√≠vel altern√Ęncia de montanhas de areia de 40 metros de altura e piscinas naturais faz deste destino um dos mais interessantes do Brasil - Foto: K√°tia Zander

incr√≠vel altern√Ęncia de montanhas de areia de 40 metros de altura e piscinas naturais faz deste destino um dos mais interessantes do Brasil - Foto: K√°tia Zander

Texto: Jorge Soto

Fotos: K√°tia Zander

Quem nunca ouviu falar da incr√≠vel paisagem dos Len√ß√≥is Maranhenses? Descrev√™ - la n√£o √© das tarefas mais simples, Talvez por isso, a palavra ‚Äúsurreal‚ÄĚ √© o adjetivo mais comum nos relatos de viagem ao lugar. O termo, por mais abstrato que seja, n√£o poderia ser mais preciso quando nos referimos a este ‚Äúdeserto‚ÄĚ com montanhas de areia de at√© 40 metros entrecortadas por lagoas de √°gua doce e cristalina, que secam por alguns meses e ressurgem na esta√ß√£o chuvosa, quando, misteriosamente, pequenos peixes, crust√°ceos e tartaruguinhas verdes reaparecem como se nunca tivessem sa√≠do dali. Quando ouvi coisas desse tipo sobre os tais Len√ß√≥is, me ocorreu um pensamento bastante comum. √Č claro que a melhor maneira de desvendar um lugar t√£o intrigante s√≥ pode ser da mesma forma como costumo explorar tantas outras raras paisagens: com meus pr√≥prios p√©s, pensei, sem gastar muito tempo para planejar a travessia. E logo estava l√° no ponto de partida da super-caminhada.

Sa√≠ de S√£o Lu√≠s bem cedo da rodovi√°ria com destino novamente a Barreirinhas. Novamente? Pois √©, ap√≥s navegar o Delta do Parana√≠ba, chegar ao munic√≠pio de Tut√≥ia, passar por Cabur√© e velejar no Rio Pregui√ßas, cheguei √† cidade que √© porta do Parque Nacional dos Len√ß√≥is j√° com grandes amizades formadas durante todo aquele trajeto. Sabe como √©… la√ßos mochileiros sempre se estreitam em trechos comuns e demorados. Se n√£o fosse isso, poderia ter imediatamente feito a travessia naquele instante, mas como a galera formada estava t√£o interessante, optei por curtir umas baladas em S√£o Lu√≠s e depois retomar meu plano de travessia, afinal, Barreirinhas dista apenas 250 km da capital. Bem que tentei convencer o grupo a me acompanhar na empreitada, mas n√£o obtive sucesso. ‚ÄúVoc√™ √© louco em cruzar isso a p√©‚ÄĚ, tive que ouvir.

Tudo bem, depois do tour por S√£o Lu√≠s, me despedi das novas amigas e me encaminhei para a rodovi√°ria, onde tomei o √īnibus rumo ao ponto inicial. O trajeto n√£o tem maiores atrativos, a n√£o ser as incont√°veis plan√≠cies forradas de carna√ļbas, baba√ßu, buritis, mangas e alguns riachinhos.

Por conta das in√ļmeras paradas, chegamos a Barreirinhas √†s 13h sob um sol escaldante. Trata-se de uma cidadezinha pequena, onde tudo se concentra basicamente em sua rua principal. Comprei mantimentos para quatro dias em uma padaria, garantindo o imprescind√≠vel abastecimento de √°gua. Quis tomar alguma coisa gelada antes, s√≥ havia o ‚ÄúGuaran√° Jesus‚ÄĚ, a bebida mais tomada no Maranh√£o, mandei ver assim mesmo. O l√≠quido √© de um cor-de-rosa chocantemente cristalino e seu sabor hiper-adocicado vem de uma mistura de guaran√°, canela e xarope. Abastecido, bastou andar pela rua principal rumo √† balsa do Rio Pregui√ßas, n√£o muito longe dali.

Pé na areia

J√° do outro lado comecei efetivamente a travessia pela sinuosa estradinha de areia sentido noroeste, rumo √†s dunas, ainda distantes quase 12 km. Passei inicialmente pelo vilarejo de Santo Ant√īnio, que se resumia a algumas casas e uma guarita do IBAMA, onde as excurs√Ķes de ag√™ncias devem parar. Para minha surpresa, andarilhos solit√°rios como eu passam batidos, sem sequer ter que se apresentar. Os guardinhas apenas acenaram e nada mais. N√£o demorou e logo me vi sozinho, em um caminho de areia retil√≠neo sem fim em meio √† vegeta√ß√£o arbustiva, um misto de caatinga e restinga. Parecia um tapete verde-claro sendo cortado por um risco branco.

Como se o sol forte j√° n√£o bastasse, ainda havia a estrada de areia fofa em si, que estava sapecando de t√£o quente. Fiquei imaginando como seria ent√£o andar nas dunas… Uma dica √© seguir as marcas de Toyotas deixadas pelo caminho, bem mais firmes e compactas para se pisar e andar. As possantes caminhonetes das ag√™ncias de Barreirinhas s√£o as √ļnicas que conseguem vencer o mar de areia por ali. Elas levam turistas diariamente (pela manh√£ e no come√ßo da tarde) √†s dunas e lagoas pr√≥ximas. Enquanto eu me matava caminhando, algumas passavam com turistas me olhando perplexos. Vontade de pedir carona n√£o faltou, mas estava determinado a chegar √†s dunas a p√©, mesmo com todas as adversidades mencionadas. Mas, um pouco mais de sol e cansa√ßo e n√£o resisti √† carona. Quando faltavam cinco quil√īmetros at√© as dunas, que n√£o conseguia ainda avistar entre os arbustos, subi em uma caminhonete que parou e segui com um grupo a toda velocidade, no melhor estilo off road.

Ap√≥s cruzarmos algumas pequenas lagoas no meio do caminho, com √°gua quase na altura da ca√ßamba, e passarmos por uma r√ļstica ponte, j√° pod√≠amos apontar no fim da estrada, ao longe, o topo dos sonhados ‚Äúmorros‚ÄĚ dourados cada vez mais pr√≥ximos.

Chegando l√°, dunas acima, o horizonte se abria por completo, me permitindo contemplar a paisagem deslumbrante que me companharia nos dias seguintes: um ‚Äúmar-de-morros ondulados‚ÄĚ feitos da mais fina areia, de uma colora√ß√£o que ia desde o branco total aos mais diversos tons de ouro imagin√°veis! Para completar esse cen√°rio incompar√°vel, os intervalos entre algumas dunas s√£o preenchidos com piscinas naturais cujas tonalidades variam do verde-esmeralda ao azul-turqueza, contrastando exoticamente com a claridade daquele areial sem fim, que se estende at√© onde a vista alcan√ßa. O visual √© resultado de um fen√īmeno natural que provoca os dep√≥sitos de sedimentos e√≥licos e marinhos compostos por gr√£os de quartzo (areia), formando as dunas. Embora a cena remeta ao t√≠pico ambiente de deserto, as √°guas de chuvas formadas gra√ßas ao Rio Parana√≠ba s√£o respons√°veis pelas lagoas que se espalham fartamente pelo lugar. O que eu contemplava ali superava e muito qualquer coisa parecida que j√° tinha visto em Florian√≥polis, Ita√ļnas, Mangue Seco ou Jericoacoara.

O momento de admira√ß√£o daquelas paisagens surreais, entretanto, foi interrompido subitamente por um medo bastante real da miss√£o a que tinha me proposto. A d√ļvida foi inevit√°vel: ‚Äún√£o seria, literalmente, muita areia para o meu caminh√£ozinho cruzar tudo aquilo ali, sozinho?‚ÄĚ. Receios √† parte, esqueci o cansa√ßo, o calor e fiquei ali um temp√£o apreciando, hipnotizado, at√© continuar a caminhar, seguindo as pegadas ou os v√°rios turistas que zanzavam por ali. As excurs√Ķes de Barreirinhas v√£o sempre aos mesmos locais: a Lagoa Azul e a Lagoa do Peixe, pr√≥ximas uma da outra. Como era in√≠cio de ‚Äúinverno maranhense‚ÄĚ, muitas lagoas estavam secas, algumas come√ßando a encher. Contudo, a famosa Lagoa Azul n√£o tinha uma gota d‚Äô√°gua sequer. No enorme espa√ßo deixado, em ch√£o bem mais firme e compacto, alguns tocos de madeira e restos de troncos dispersos provam que aquilo j√° foi um exuberante mangue. Lagoas secas sempre t√™m uma vegeta√ß√£o rasteira de gram√≠neas e capim ralo que crescem com o in√≠cio da pluviosidade, mas o que me chamou a aten√ß√£o foram as pequenas po√ßinhas d‚Äô√°gua com girinos (!?), cujos ovos s√£o enterrados na √©poca seca e eclodem ao menor sinal de √°gua.

Caminhando at√© o fim da enorme piscina seca, logo h√° de se subir a duna, desc√™-la em seguida, e andar novamente por outra pequena lagoa seca, sempre acompanhando as pegadas deixadas bem √≥bvias e evidentes, ou seguindo sentido noroeste. Olhando desde o norte/noroeste at√© o sudeste, tinha eu a vis√£o das dunas, de contornos suaves e abaulados, salpicadas de pequenas lagoas represadas; j√° ao sul/sudoeste ainda avistava a faixa verdejante de restinga que limita os ‚ÄúGrandes Len√ß√≥is‚ÄĚ.

Na Lagoa do Peixe

Nem dez minutos de sobe-e-desce me levaram à Lagoa do Peixe, uma enorme lagoa perene aos pés de majestosas dunas, onde todos os turistas parecem se concentrar para um banho refrescante. Apesar de tumultuado, o lugar não deixa de ser paradisíaco. Joguei a mochila num canto e fui me refrescar nas águas da lagoa, que recebe este nome devido à dita ocorrência de peixes em algumas épocas, apesar de eu ter avistado apenas girinos. Mas me contentei admirando as belas flores aquáticas e alguma vegetação que finca suas raízes no fundo e permanece balançando ao sabor do vento.

Com girinos ou n√£o, a √°gua me parecia mais que pot√°vel e abasteci sem hesitar minhas garrafas. Fiquei por ali o resto da tarde, assim como os grupos permanecem at√© o p√īr do sol. Mais tarde, enquanto todos iam embora, retomei a caminhada apenas para buscar um bom local para acampar. Decidi pernoitar ao lado da √ļltima grande lagoa que encontrei. Montar a barraca voltada de costas para a duna √© fundamental, pois o vento rasteiro sempre carrega muita areia, e se deixar a entrada voltada para a duna, em pouco tempo o interior se encher√° de areia.

A temperatura √† noite estava agrad√°vel, mas n√£o fui poupado de impressionantes, embora espor√°dicas, rajadas de vento. Eventualmente, sentia o tilintar de montes de areia sendo arremessados nas laterais da barraca! A impress√£o era de estar numa tempestade de areia, com a arma√ß√£o do meu ‚Äúabrigo‚ÄĚ remexendo bruscamente a cada forte ventania.

incr√≠vel altern√Ęncia de montanhas de areia de 40 metros de altura e piscinas naturais faz deste destino um dos mais interessantes do Brasil - Foto: K√°tia Zander

Incr√≠vel altern√Ęncia de montanhas de areia de 40 metros de altura e piscinas naturais faz deste destino um dos mais interessantes do Brasil - Foto: K√°tia Zander

Trekking na madrugada

Para n√£o pegar o sol forte da tarde e render na caminhada, resolvi dar prosseguimento √† expedi√ß√£o bem antes de amanhecer. Acordei antes das quatro e levantei acampamento. A recompensa, por√©m, n√£o foi apenas um c√©u limpo e estrelado, mas sim a maravilhosa lua cheia que iluminava a paisagem diante de mim; as outrora ondula√ß√Ķes douradas de areia agora eram espetacularmente prateadas, de perder de vista! Com perfeita visibilidade e visual mais que inspirador, comecei a andar, deixando lentamente as lagoas e a faixa de restinga para tr√°s.

O belo brilho da lua refletido em l√Ęminas de √°gua dissipou meu receio de n√£o encontrar o precioso l√≠quido naquele dia e segui mais leve dispensando os tr√™s litros extras de √°gua que carregava por garantia, mantendo apenas a garrafa b√°sica de
um litro e meio.

Basta uma hora de caminhada no deserto para ‚Äúpegar o jeito‚ÄĚ menos desgastante e mais produtivo de avan√ßar no local, que mant√©m a mesma paisagem, n√£o disp√Ķe de trilha e nem sequer refer√™ncia visual. Como meu destino naquele dia era o ‚Äúo√°sis‚ÄĚ de Baixa Grande ou Queimada dos Britos - distantes quase 30 km - teoricamente bastava seguir sentido norte/noroeste, descontada a declina√ß√£o magn√©tica b√°sica, claro! Qualquer problema eu certamente chegaria no mar, de onde sempre sopra o vento, o que pode ser constatado atrav√©s do formato das dunas: a ‚Äúbarriga‚ÄĚ levemente inclinada sempre ser√° o norte/nordeste. Quando cheias e fundas, as lagoas devem ser contornadas pelo lado menos √≠ngreme da duna; se est√£o secas, √© s√≥ atravessar direto.

Do lado do vento, as dunas s√£o firmes, compactas e boas pra caminhar; j√° do lado √≠ngreme, oposto ao vento, √© fofa demais e √© quase imposs√≠vel subir de frente; mas para descer √© uma del√≠cia, pois se afunda o p√© inteiro, quase at√© a canela. J√° com todo esse know how, era s√≥ colocar o p√© na areia e checar a b√ļssola a cada cinco ou dez minutos.

As dunas nunca são as mesmas de um dia para o outro. A paisagem é redesenhada constantemente pela ventania, fazendo com que ninguém veja exatamente a mesma imagem duas vezes. As montanhas de areia avançam, somem umas, aparecem outras, retrocedem e, consequentemente, ditam o formato das lagoas, que podem desaparecer dando origem a outras. Uma carta topográfica do lugar não faria nenhum sentido.

Amanhecendo

A escuridão lentamente se dissipando, dando lugar a um céu tingindo-se gradativamente de tons escarlates cada vez mais vivos e iluminando aquela paisagem era algo realmente espetacular. O reflexo dessas cores nas lagoas era um show à parte.

Testemunhava ainda a textura ondulada das dunas, quase totalmente sim√©tricas e homog√™neas, lentamente sendo modificadas pelo vento rasteiro. √Äs vezes o vento sopra mais forte em rajadas, fazendo com que a areia ‚Äúpinique‚ÄĚ as canelas, mas, em geral, se limita a brisas suaves bem-vindas. Outro detalhe √© o sil√™ncio generalizado, perturbador at√©, s√≥ quebrado pela minha respira√ß√£o ofegante. Apesar do ambiente in√≥spito, sinais de vida eram constantes, com pegadas de aves ou cavalos e diminutos dejetos de bode presentes durante todo o trajeto. E, de repente, eis que um rebanho errante deles surge na vastid√£o de areia, me remetendo a uma cena b√≠blica qualquer. Soltos, eles passam o dia comendo o capim das lagoas secas, que, por sinal, s√£o verdadeiros redutos de vida. Era em seus arredores que sempre ouvia alguma ave reclamar diante da minha aproxima√ß√£o, principalmente a cabur√©, uma corujinha que faz sua toca no ch√£o. Havia tamb√©m carcar√°s, ma√ßaricos e quero-queros, al√©m da pininga, uma esp√©cie de tartaruguinha.

Escolhi uma belíssima lagoa verde-azulada ao pé de uma enorme e alva duna para mais um dos vários pit stops. A coloração das lagoas - cristalina, azul ou verde - depende exclusivamente do tipo de lodo e vegetação depositados ao fundo. Havia ali até pequenos peixinhos que fugiram agilmente quando mergulhei nela pra me refrescar. Um tchibum mais que merecido.

Aos poucos o caminho se tornava mais f√°cil com as dunas mais baixas e as lagoas secas se interligando, formando uma esp√©cie de ‚Äúavenida‚ÄĚ em meio √†quela vastid√£o ondulada, mas o cansa√ßo acumulado aumentava sob a luminosidade das dunas. Como a colora√ß√£o da areia depende da incid√™ncia dos raios, a paisagem no meio do dia √© totalmente branca, tornando-se dourada ao entardecer.

Por volta das doze horas, avistei alguns pontinhos pretos que anunciavam a restinga que era meu destino do dia. Mas as dist√Ęncias no deserto enganam e havia uma boa jornada um tanto exigente at√© l√°.

Assim como as dunas, as lagoas também variam de forma, tamanho, cor e volume - Foto: Kátia Zander

Assim como as dunas, as lagoas também variam de forma, tamanho, cor e volume - Foto: Kátia Zander

No O√°sis de Baixa Grande

Os o√°sis dos Len√ß√≥is fazem jus √† denomina√ß√£o. Baixa Grande parece uma ‚Äúilha verde‚ÄĚ em meio √† paisagem monocrom√°tica do deserto. Do alto de uma duna avista-se uma larga faixa de restinga verdejante contrastando com a areia, com seus arbustos de galhos retorcidos, e v√°rias lagoas transl√ļcidas.

Ali h√° uma vila, que se resume a umas cinco casas de taipa, cobertas com palhas de buriti, onde apenas quatro fam√≠lias vivem ao p√© de frondosos coqueiros. Apesar de simples, o lugarejo era bem organizado, com uma cerca bem r√ļstica de galhos de cajueiros e mirins, ro√ßado, pomar, e at√© um jardim! A presen√ßa abundante de √°rvores baixas funciona como cerca viva, impedindo as casas de serem engolidas pelas dunas. A luz das casas √© garantida por lamparinas e a √°gua √© retirada das in√ļmeras lagoas ou de simples bombas manuais.

Mal me aproximei e fui convidado para adentrar a casa da simp√°tica dona Maria, que me ofereceu √°gua e uma cadeira (a √ļnica dispon√≠vel na choupana) para descansar. Foi apenas me sentar para me sentir o pr√≥prio entrevistado do programa ‚ÄúRoda Viva‚ÄĚ. Aos poucos, foi surgindo mais e mais gente que se juntava na entrada da casa. Curiosos, alguns faziam perguntas e me contaram que os homens da vila iam pescar no litoral, a uma hora e meia dali (os locais, em geral, s√≥ medem as dist√Ęncias por tempo), numa esp√©cie de nomadismo sazonal.

A pesca s√≥ √© poss√≠vel na √©poca das chuvas, que no Maranh√£o, vai de janeiro a julho; j√° na √©poca de secas, a sobreviv√™ncia vem da cria√ß√£o de rebanhos e de alguns cultivos. Neste per√≠odo, o prefeito de Santo Amaro chega ao local de caminhonete para deixar produtos encomendados para passarem o ‚Äúinverno‚ÄĚ, pois a estrada se torna intransit√°vel no per√≠odo das chuvas. Ficam literalmente isolados do resto do mundo, o que explica, em grande parte, a extrema hospitalidade com que recebem estranhos como eu. Visitas por ali s√£o fen√īmenos bastante ex√≥ticos.

Depois do agrad√°vel dedo de prosa, segui minha expedi√ß√£o recusando hesitante o convite para pernoitar por ali em uma das redes da casa. Nada mal, se n√£o me faltassem uns bons quil√īmetros para cumprir meu planejamento do dia.

Morrendo na Praia

J√° exausto, parecia andar mais por in√©rcia, apenas norteado pela necessidade de chegar aos ‚Äúmatinhos‚ÄĚ de Queimada dos Britos, cada vez mais pr√≥ximos. Antes da chegada, entretanto, passei por um agrad√°vel obst√°culo, o manso e largo Rio Negro, curso d‚Äô√°gua que atravessa perpendicularmente todos os Len√ß√≥is, at√© desaguar no mar. Depois de testar a profundidade em um delicioso mergulho, atravessei-o equilibrando a mochila na cabe√ßa, para chegar ao p√© de uma enorme duna. Depois de realmente escalar com muito esfor√ßo a √ļltima montanha de areia do dia, uma decep√ß√£o: onde estava a Vila? Em Baixa Grande, haviam me informado que este o√°sis (Queimada dos Britos) era bem maior, mas de onde estava s√≥ avistava a linda paisagem de dunas, lagoas e muita vegeta√ß√£o arbustiva, mas nenhum sinal da vila. Certamente teria que procur√°-la, mas estava no limiar de minhas for√ßas. Se desse mais um passo, era bem prov√°vel aparecer uma tela vermelha na minha frente acusando uma opera√ß√£o ilegal e minhas pernas certamente travariam. Esqueci por um momento a vila e a poss√≠vel cerveja, que sonhava me esperar.

Acampei aos pés daquela enorme duna, do outro lado, às margens de uma bela lagoa. Dois garotos que passaram por ali indo em direção ao rio me avisaram que Queimada dos Britos distava apenas uns 15 minutos, mas eu não tardaria em cair no sono e o roteiro só foi retomado no outro dia.

Queimada dos Britos

Choveu ininterruptamente durante a noite e acordei com algumas poças de água dentro da barraca. Com o cansaço, os pingos haviam passado despercebidos e só foram contabilizados de manhã, quando constatei minha roupa toda molhada. Como o aguaceiro não dava trégua, levantei acampamento e segui levando peso extra da bagagem molhada a contragosto.

Andei um tempo com a chuva fustigando meu rosto, sem encontrar qualquer sinal de vila. Para completar, minha b√ļssola, molhada, parou de funcionar. O jeito foi seguir intuitivamente pelas dunas enormes paralelas ao o√°sis. Ironicamente, √© mais dif√≠cil se orientar dentro dos o√°sis do que no deserto. Subi uma duna maior para ter uma ideia geral de onde estava, e, finalmente, avistei ao longe um telhado vermelho, ao lado de uns coqueiros.

Ao alcan√ßar a casa, um senhor t√£o simp√°tico quanto dona Maria me convidou para entrar. Seu Jos√© Domingues foi extremamente cordial e me brindou com uma tigela com camar√Ķes frescos enquanto me contava da vida dali, n√£o muito diferente da de Baixa Grande, com a diferen√ßa de que em Queimada dos Britos, mora mais gente nas 25 casas espalhadas pelo o√°sis.

O isolamento e as agruras do deserto s√£o respons√°veis pela uni√£o e pela solidariedade entre todos os moradores dali, que me pareceram uma grande fam√≠lia. E de fato s√£o, uma vez que todos t√™m algum grau de parentesco. Jos√© Domingues me contou que certa vez algu√©m adoeceu gravemente e colocaram a pessoa numa rede pendurada num pau, e, em comitiva, atravessaram o deserto at√© Santo Amaro (seis horas dali), se revezando quando algu√©m se cansava. Mas, no geral, eles n√£o costumavam deixar a vila e alguns jovens nunca sa√≠ram dali. Quando segui viagem, percebi que a chuva realmente jogava contra. Al√©m de estragar a minha b√ļssola, apagou as trilhas pelas quais eu me guiava, detonando as j√° prec√°rias estradinhas, o que ainda tornava nula a minha chance de pegar alguma carona. Voltei ao povoado e descobri que, para minha felicidade, um dos locais tinha que ir buscar uns bodes na dire√ß√£o de Santo Amaro, meu destino.

Santo Amaro do Maranh√£o

Com a ajuda de Neto, o morador local que acompanhei, cheguei ao limite de Santo Amaro. Passei ent√£o por campos de arbustos retorcidos, uma plan√≠cie de pasto encharcado, uma enorme lagoa (a Lagoa Santo Amaro) e por um extenso carnaubal, at√© que o sil√™ncio da caminhada foi quebrado pelo alto som de um forr√≥ aumentando de volume atr√°s de mim. Uma Toyota repleta de pescadores locais vinha pelo mesmo caminho que percorria e me ofereceram carona, a qual eu n√£o recusei. Os cinco quil√īmetros restantes se deram em um divertido sacolejo, entre isopores cheios de gelo, tainha e pescada frescas, embalados ao som do ‚ÄúGaroto Safado & Lagosta Bronzeada‚ÄĚ.

A vila cercada de palmeiras √© obviamente simples, disp√Ķe de alguma infra-estrutura, por√©m √© bem menor que Barreirinhas. Ficou famosa recentemente no filme brasileiro ‚ÄúA Casa de Areia‚ÄĚ, que foi respons√°vel pela chegada da eletricidade at√© o local. Mesmo assim, conserva o charme e a rusticidade t√≠pica de um vilarejo no interior do Maranh√£o; as ruas de areia do entorno contrastam com o pavimento existente apenas na ‚Äúrua‚ÄĚ principal, onde fica uma igrejinha, vendas, etc. Nela me deparei com um ‚Äútrator-bus‚ÄĚ, meio de transporte coletivo que consiste em um trator com reboque com assentos.

Camelando de volta

Deixei Santo Amaro no outro dia em uma Toyota que faz o traslado até São Luís por uma sinuosa e precária estrada de areia, que atravessava ora matas fechadas de restinga alta, ora pequenas lagoas com água acima das rodas! Literalmente uma aventura, ainda mais quando pude apreciar a alvorada dando cores àquela paisagem selvagem e agreste.

Fiquei pensando como era simplista a defini√ß√£o de deserto para este lugar que sazonalmente se transforma por completo proporcionando miragens de rara beleza que se tornam tang√≠veis na forma de o√°sis verdejantes, lagoas cristalinas, muita vida, habitantes gentis esporadicamente n√īmades, donos de uma cultura peculiar. Ao contr√°rio dos demais desertos, locais ef√™meros e sem mem√≥ria, os Len√ß√≥is s√£o igualmente locais mutantes ao sabor dos ventos, por√©m, de uma dimens√£o ex√≥tica que fica mais evidente quando √© cruzado tal qual seus moradores o fazem, ou seja, a p√©.



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